Quando
era miúda, da janela do meu quarto avistava uma grande colina, onde parte do
ano observava vacas e ovelhas na sua rotina pastorícia. Era uma paisagem muito
bonita e algo rara quando se vive tão perto de Lisboa mas, na altura, não tinha
consciência disso. As horas que eu passava ali, com a cabeça apoiada sobre os
braços cruzados, não eram tanto de contemplação mas mais de “alucinação”.
Imaginava que, para além daquele monte, vivia algures uma menina como eu, cheia
de ideias e fantasias mil que o mundo dos crescidos desvalorizava ou dizia não
serem possíveis.
No
mundo real nada é simples, nada é fácil! E isto deve-se tão somente ao facto do
mundo real sermos nós, seres complicados e altamente viciados em ideias
preconcebidas, que muitas vezes nem conseguimos entender, mas que deixamos que
nos guiem cegamente!
E
à medida que crescemos, se bem que começamos por pôr tudo em causa, ousamos e
desafiamos regras, rapidamente o conformismo e a inércia se entranham em
nós. Faz parte da evolução pessoal de cada um, para que nos tornemos
socialmente aceites. Quem não “joga” assim, fica à margem!
Agora,
cerca de 30 anos passados, resolvi fazer um “reset” e ir em busca do meu “eu”,
perdido com o passar dos anos. Foi então que me dei conta que uma parte
de mim ficou naquela janela. Não é algo que deva chorar ou lamentar. A vida é
mesmo assim! Ou não é? Todos temos que seguir um percurso! E seguramente que
cada um terá que encontrar o seu!
A
questão é: como devemos encará-lo?! Devemos fazê-lo no encalço de outros, do
modo como é suposto e sem margem para desvios ou, antes, devemos ir desbravando
caminho, sermos livres para hesitar e voltar atrás, refletir e duvidar?
O
que temos que descobrir é: O que é que nos inspira?
E se for olhar para um monte verdejante a perder de vista, então seja!